A Banda dos Corações Partidos - Faz Casa (single)

Atualizado: Jan 10

Composição é de Edézio Aragão e Mariana Aragão, é um mantra sobre aconchego, lar e amor


por Alisson Mota



"Faz casa, asa faz. Sonho, sono, faz silêncio" é o mantra composto por Edézio Aragão e Mariana Aragão há quase 10 anos e que hoje ganha uma versão em estúdio d'A Banda dos Corações Partidos. Explorando novas sonoridades, do ska ao forró, é o segundo single da banda desde o EP Desamor, de 2018.


A canção já fazia parte do repertório da banda, ainda que casualmente em shows específicos. Mas com o isolamento, o reforço e o questionamento acerca do sentido de casa, A Banda dos Corações Partidos viu a deixa para lançar a música enquanto single, dando continuidade ao processo de pesquisa sonora do grupo, liderado por Diane Veloso. A canção também conta com a participação de Jaque Barroso, que divide os vocais com Diane.


Mariana Aragão explica de onde surgiu a inspiração para compor: “Quando essa poesia foi feita, estava imersa num momento de construção do amor. Do desejo de compartilhar vida, teto, sonhos, silêncios. Do construir junto, do poder silenciar com tranquilidade e confiança, fechar os olhos sem ter medo. Adormecer sem ter medo. Se permitir sonhar. A casa enquanto espaço de expansão, o solo bom que sustenta e nutre o voo. Também fala do amor próprio, de se saber casa, de se criar chão e ter coragem pra caminhar na vida, realizar, fazer, construir a si mesme. Aquietar, se ouvir, ouvir os sons de dentro e de fora, sentir o que cresce, cultivar”, conta.


Sobre Faz Casa, Aragão conta que foi composta por volta de 2011 e é uma espécie de oração, um mantra. "É algo já próprio da poesia de Mariana Aragão, cuja escrita me foi compartilhada quando namorávamos. Sempre fui muito fã de sua escrita, e quando me debrucei em várias de suas poesias, Faz Casa me tomou de assalto. É um tipo de haikai, tinha a precisão e síntese do cuidado, do amor e da beleza", revela.


O compositor também explica como pensou a estrutura da música, composta em tom menor. "Uni elementos que gosto imensamente. Uma sequência bem melodiosa na tradição do cancioneiro popular, só que com uma variação de semitons da harmonia no final do ciclo, que pesquei do universo do Radiohead, como na música True Love Waits, que ouvi na internet, dessas gravações caseiras antes de ser lançada em álbum. Algo que também abria para elementos orientais, que na versão acústica era feito com a voz. Na versão com banda, o arranjo de teclados feitos por Leo Airplane, sugeria e expandia para outros caminhos. Daí veio uma dinâmica rítmica dançante, no caso, um ska à lá ska cubano, que na época ele ouviu muito", esmiúça.


Capa: Taime Gouvea

Diane Veloso conversou com o aCorde sobre o lançamento, a trajetória da banda e as perspectivas para o futuro:


Nos dois últimos singles é perceptível que há uma experimentação, no sentido de buscar novas sonoridades, de cunho regional. É verdade que desde o primeiro álbum a banda explora os ritmos da ciranda, do brega pernambucano e até mesmo da guitarrada paraense. Como tem sido e o que tem provocado essa nova experimentação com o pagodão (Offline), o ska e o forró, antes inexplorados pela banda?

DV - A banda desde o início sempre flertou com a sonoridade mais popular. A gente tem um guitarrista que toca numa banda de cumbia, tem Leo [Airplane] que tocou muito tempo na naurÊa, assim como Alex [Sant’anna] que é o principal compositor da banda, eu dentro da minha vivência no teatro também carrego minhas sonoridades… inclusive a própria banda surgiu de uma oficina que fiz de palhaçaria e melodrama onde a gente trabalhou musicas melodramáticas brasileiras, desde Lupicínio [Rodrigues], à Maysa, à Roberto Carlos, às marchinhas de carnaval… Então isso também foi muito forte na construção da banda, a gente carrega isso. E essa necessidade de trazer essas sonoridades vem de forma bem espontânea, muito das experiências de cada um e dessa elaboração junto ao próprio conteúdo que a banda escolheu – e escolhe manter até hoje -, que é falar sobre o amor, o desamor, o amor clichê, mas que o mesmo tempo esgarça o clichê e se transforma em algo mais profundo… Muito ainda, claro, ligado ao amor ocidental, mas cada tem os seus processos e assim tentamos expandir um pouco mais o sentido do amor.


E assim acontece com as nossas buscas sonoras. Quando a gente traz o pagodão é porque, por exemplo, quando a gente ouviu o Baiana System, aquilo impactou todo mundo e esse impacto a gente carrega na hora de compor. A gente é muito aberto e muito alerta para o que a gente tá vivendo. Essa sonoridades vão chegando de forma muito espontânea, por necessidade mesmo, necessidades corporais. A gente começou a banda de uma forma muito fofinha e romântica e agora a gente tá vivendo um momento extremamente visceral da banda, da minha performance, da sonoridade que a gente vem construindo, das letras de Alex…Queremos discutir outras coisas. E enquanto a gente quer falar, essas outras sonoridades vão chegando e se fazendo necessárias. Por isso também a importância de a gente estar aberto e alerta a tudo que está sendo feito, além de resgatar aquilo que todo mundo já fez, aquilo que parece que ficou nos nossos passados, mas tudo vai vindo e se misturando. E tudo muito orgânico e parte de necessidades, de reelaborar a banda seguindo esse caminho que a gente escolheu, desse conteúdo e dessa forma que vão se mutando. Porque é isso, a arte está sempre nesse estado de mutação.

Aragão comentou que a música foi composta há quase 10 anos, lá em 2011. O que fez a Corações resgatar essa composição, além do gancho da pandemia? De que forma a composição dialoga com o novo momento da banda?

DV - Essa música tá há 10 anos na banda, que a gente escolhe por vezes para repertórios porque a gente considera ela um respiro, geralmente em shows que a gente sabe que tem um tempo mais expandido e um espaço que permita esse lugar de respiro no show. Inclusive é uma música que a gente adora, porque ela é muito gostosinha, dá pra passar um tempo cantando e curtindo ela ali. Então geralmente escolhe quando tem essa possibilidade de um show mais expandido mesmo. E a gente tem um carinho grande por ela por ser uma parceria de [Edézio] Aragão, que foi da banda por muito tempo, e de Mariana [Aragão] que também é uma querida.


A música ressurge neste momento, em gravação, por conta deste momento e das reflexões que acabaram aflorando na pandemia. A reflexão do sentido de casa, o momento que ficamos em casa... quem tem casa? que casa é essa? É casa-corpo? é casa física, arquitetônica? Então todas elas questões afloraram e vêm aflorando, eu venho nessa reflexão há bastante tempo. Eu desenvolvo outro trabalho no meu grupo de teatro, que é um infantil onde a gente já tá trabalhando questões referentes a isso, a esses significados de casa e suas representações. E no meio disso, me vi cantarolando e falei “nossa, é agora… é o momento dela ser gravada”. E aí na hora todo mundo achou bacana! E num dos últimos shows a gente convidou algumas mulheres cantoras maravilhosas daqui para participar e uma delas foi Jaque [Barroso]. E foi lindo! Porque ela é uma mulher incrível e trouxe a força, delicadeza e coragem dela para essa música. Foi uma junção muito gostosa de fazer!

Faz Casa é fruto de parcerias. Na composição e na interpretação há construção de pessoas de fora da banda, ao mesmo tempo que Diane Veloso também tem contribuído com outros projetos, a exemplo de Por um Clique (Alex Sant'anna) e Quareterna Serigy (The Baggios). Qual o significado dessas colaborações e como a banda se enxerga nesse contexto cada vez mais conectado? Qual a importância desses intercâmbios?

DV - Fazer arte é coletivo. Viver é coletivo. A experiência humana só tem sentido no coletivo. Essa vida experimentada, experienciada, é coletiva. Eu sou porque o outro é, então poder contribuir e ter outros artistas contribuindo nos nossos projetos pra mim é fundamental, é o recurso mais humano e ético que se pode ter. Ainda mais nesse lugar que a gente ocupa, de inadequação. Somos artistas dentro de um viés da arte que tá nesse lugar da inadequação.


Não estamos no mainstream, não estamos dentro dessa corporação em que se coloca a arte num lugar mercadológico… não que a gente não precise disso, até porque a gente precisa sobreviver, a gente precisa vender (vender, né…), receber dinheiro para sobreviver. Mas para a gente sobreviver de verdade, precisa ampliar o sentido da coletividade. Estar em coletivo é estar vivendo. E o intercâmbio entre os artistas é fundamental. O artista não pode se prender numa bolha, enclausurado com suas ideias, isso não faz o menor sentido pra arte. A importância desses intercâmbios é a sobrevivência enquanto seres humanos, enquanto artistas, enquanto profissionais… e é isso, dentro dessa perspectiva mercadológica a gente precisa do coletivo para sobreviver. Para isso, também, precisamos estar juntes!

Faz Casa é o segundo single desde o EP Desamor e explora uma sonoridade inédita pra Corações. As novas canções indicam um novo álbum? Como a banda tem pensado sua produção e os caminhos a seguir?


A gente sempre vem refletindo sobre que caminho seguir. Essas músicas novas desde o EP partem de uma necessidade de explorar outros lugares, outros caminhos, dentro do nosso universo do amor e desamor. A banda tinha uma sonoridade e uma performance mais doce, mais fofa… Agora a gente tá em outros tempos, repetindo outras coisas e isso também reflete no processo de pesquisa sonora da própria banda, né.


Mas assim, a gente ainda não tem nada pensado para um álbum. A gente tem feito essas provocações, lançando EP… Temos pensado sobre as novas formas de consumir música né, porque também acabam indicando caminhos que a gente vai percorrer. Então a gente tem percebido que lançar singles tem sido algo mais eficiente para chegar. Porque as pessoas não conseguem mais ouvir álbuns inteiros, ouvem uma música e as playlists…. Estamos tentando entender um pouco esse processo e vivenciar isso. Se vai funcionar para a banda, a gente ainda não tem essa percepção. Mas eu particularmente gosto muito da ideia de álbum, de criar conceitos, um espetáculo. A banda tem esse perfil né, do show-espetáculo, pensado, elaborado, com curvas… Mas não temos nada fechado ainda. É algo que a gente tá investigando, burilando.



Ficha Técnica


Faz casa (feat. Jaque Barroso)

(Edézio Aragão e Mariana Aragão)


Produzido por Leo Airplane


A Banda dos Corações Partidos é:

Alexandre Gomes - Guitarra 

Diane Veloso - Voz 

Leo Airplane – Teclado e Piano

Luno Torres - Baixo 

Josimar Santos – Bateria


Participação especial de Jaque Barroso




Gravado no DDB Estúdio por Leo Airplane entre maio e julho de 2020 em Aracaju/SE.

Mixado e Masterizado por Leo Airplane no DDB Estúdio

Ilustração e Design: Taime Gouvea

Produção Executiva: Alex Sant'Anna