CH Malves pesa a mão no experimental em seu primeiro trabalho solo

Manuscrito sobre Pedras traz 4 músicas que transitam do orgânico ao digital; do terrestre ao espacial


por Alisson Mota

com informações do selo Hominis Canidae REC


Foto: Ester Rosendo

CH Malves é aquele tipo de músico coisa-braba, enfiando em monte de projeto. O bicho já tocou em banda de de tudo quanto é estilo musical. Oficialmente, tocou na Orquestra Sinfônica de Sergipe, na banda instrumental psicodélica pernambucana Anjo Gabriel, na banda indie paraibana Glue Trip, entre vários outros projetos. Foi na Paraíba onde desenvolveu ao máximo seu trabalho como músico, produtor e baterista: fundou a banda instrumental Ubella Preta, tocou com a Jaguaribe Carne, fez parte do coletivo Artesanato Furioso e do Selo Fictício, entre mais uma porrada de coisa.


Depois desse rolê todo, CH finalmente apresenta seu primeiro trabalho solo. “Manuscrito Sobre Pedras remete ao desejo de talhar a pedra e encontrar ali suporte primordial para o desejo expressivo", conta o release apresentado pelo selo Hominis Canidae REC. O EP conta com quatro composições que progridem através de processos aditivos de camadas e sonoridades ásperas, etéreas e estranhas, mas contando uma história.


Essa história se desenha a partir de experiências com overdubs, técnica estendida, microfonação móvel e música eletroacústica. A sonoridade beira a saturação e esgarçamento a partir dos temas títulos de cada música. A bateria com amplificação fluida, revela focos sonoros entre pratos, peles, cerdas metálicas, Glockenspiel, Percussão e resíduos do espaço, trazendo uma tentativa de escuta expandida para o instrumento e sua recepção.


Equipamento utilizado na gravação

Para entender melhor os processos de Manuscrito Sobre Pedras, fizemos algumas perguntas a CH. A íntegra da entrevista você confere abaixo:


Capa de Manuscrito Sobre Pedras

aCorde - Qual a sensação de defender um trampo que é só seu, depois de ter tocado em tantos projetos, principalmente por ser essencialmente experimental?

CH - É massa demais, a sensação é "porque que não fiz isso antes?". O trabalho com som experimental está comigo há muitos anos, desde da minha graduação, foi o que me salvou na realidade em termos de expressão, confiança e vida acadêmica. Como sou muito ligado à performance ao vivo, a ideia de um som fixo gravado sempre foi ficando em segundo plano. Com a Lei Aldir Blanc resolvi concretizar essa ideia, até tentei pensar em algo mais convencional instrumental com banda, mas fazer tudo à distância não rolou, achei muito chato. Decidi fazer uma coisa que eu sentia prazer em todas as etapas e não dependesse de ninguém. Com isso sobrou eu, a bateria e os processadores. Manuscrito é um disco solo de bateria. Eu estava devendo isso ao instrumento que me acompanha há tantos anos e me deu tanta satisfação, aqui eu pude na prática expandir o instrumento, para além do que eu usava em outros trabalhos. No disco, tem percussão, samplers, efeitos e muita sonoridade produzida a partir de microfones de contato. Não pensei o som com pulso, nem ritmo regular, a duração é curta muito por isso, como não temos referências de partes e temas, ele acaba soando maior do que é.

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aCorde - O nome das faixas e do EP, além da experiência sensorial, me remeteram aos primórdios da Terra, uma relação com espaço, uma inserção do terrestre com o espacial. Foi essa a intenção? Como você pensou o caminho conceitual?


CH - Sim, foi por aí. O conceito eu criei depois do som, sempre fiz isso. Vou escutando e encaixando as ideias que vem à mente. Esse som foi produzido a partir de uma peça que tocava para vídeo chamada Science Fiction Scenaries, então já estava no espírito. Quando vi o material que sobrou da gravação e comecei a editar, o nome das músicas foram surgindo. O disco tem uma ideia embrionária que evolui. Se você observar a primeira música Selva é mais orgânica e a última Post Human tem mais processadores, loops, acelerações, sobreposições. No fim deixei de chamar de EP e passei a chamar de disco mesmo, não faz muita diferença. O nome Manuscrito Sobre Pedras eu já tinha há mais tempo, tem haver com fixar uma ideia em um suporte, talhar na pedra, manuscrito é mais rudimentar, artesanal.


aCorde - Quais foram suas referências na hora de construir Manuscrito sobre Pedras? Ou foi essencialmente um expurgo de uma lombra só sua?


CH - Aqui uso os processos de criação que utilizamos no Artesanato Furioso, que é um grupo de pesquisa e musical da UFPB que estuda performance e música experimental, capitaneado por Valério Fiel da Costa. Lá, passamos por vários processos de produção sonora do século XX, daí a sonoridade em si já perde as amarras. O fato de não conhecer um disco solo de Bateria com esses processos me estimulou a fazer também. Sobre sons parecidos e artistas que me estimula me vem à mente o Chris Cutler, ele alopra o som do instrumento com efeitos e uma performance linda, com movimentos precisos, e tem o Brian Chippendale que é fantástico e montou o Lighting Bolt, ele também não tá nem aí pras normas do instrumento, bom demais ver ele tocando.

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aCorde - Como foi o processo de produção e quanto tempo levou pra produzir essas faixas? Foi um trabalho mais orgânico ou ele passou por muitas intervenções de pós-produção?


CH - Eu gravei tudo em um dia só. Produzi umas 2 horas de som e fui separando na edição. A priori a ideia era apresentar a bateria mais orgânica na primeira música e ir colocando mais processos e efeitos, similar a música eletroacústica, o disco acaba num loop, quase chegando na formação de um pulso, mas acaba. Na edição eu demorei mais, fazia e refazia alguns efeitos, passava semanas sem mexer. Ao todo o processo durou uns 4 meses. Quando ia lançar, Diego da Hominis Canidae REC quis lançar pelo selo dele, aproveitei e fiz um acordo pra ele cuidar da divulgação também, melhor coisa que fiz. Deixar pra quem sabe.

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aCorde - Como as pessoas têm recebido o trabalho? Qual sua perspectiva nesse trabalho autoral?


CH - Tá sendo muito bom, a música experimental tem um nicho forte, aí no fundo basta você fazer chegar na galera. Vi muitas publicações sobre o disco em blogs, sites, várias playlists, eu só não sei de quais estados eram, mas foram bastantes, galera que eu não conhecia e com certeza vou acompanhar. O trabalho de divulgação e distribuição do selo Hominis Canidae REC foi fantástico, ele tinha uma série de contatos e um processo pronto que impulsionou bastante, além de jogar nas plataformas, cuidar dos registros fonográficos, fazer press release, coisa que sozinho, com certeza, não iria fazer. Isso tudo faz o trabalho autoral ser concluído com satisfação, você cria uma rede, é legal ter várias pessoas e suas capacitações no processo, o fato de ser um projeto financiado pela Lei Aldir Blanc possibilita gerenciar melhor, mas com certeza, independente disso, iremos lançar material com mais frequência pelo selo.


 


Ficha Técnica

Produção: CH Malves

Gravado no Estúdio Antônio Cruz em Dezembro de 2021.

Fotografia: Gladson Galego

Assistente de Fotografia: Gabriel Barreto

Técnica de gravação – Ester Rosendo


Agradecimentos: Funcap, Lei Aldir Blanc, Ester Rosendo, Ismark Nascimento, Gladson Galego, Gabriel Barreto, Rafael Diniz, Betina Farias, Valério Fiel da Costa e Diego Pessoa (Hominis Canidae).