#03 | Triste Fim de Rosilene - Split com Mais Treta (BA) e Ofensa (ES) (2004)

Atualizado: 9 de Ago de 2020

João Mário escreve sobre a forte ligação com o trabalho da saudosa Triste Fim de Rosilene


por João Mário


O Split da Triste Fim de Rosilene com as bandas Mais Treta (BA) e Ofensa (ES) (2004) não é um álbum como se concebe normalmente. Esse registro é um clássico pela atemporalidade infeliz de sua crítica, pelo seu senso de continuidade e ruptura, pela sua força e espontaneidade, pela poesia, pela raiva e pela utopia, mas principalmente, e fundamentalmente, pelo seu “espírito” – é impossível não se sentir atingido pela potência de tudo nesse disco. A voz de Daniela Rodrigues atravessa, corta, quebra tudo que aparece pela frente.



A instrumentação – feita toda a quatro mãos por Thiago Babalu (bateria) e Ivo Delmondes (baixo/guitarra) – não cessa de esmagar a gente. Tudo isso é executado pelos três de maneira primorosa. A música aqui está muito mais para a ameaça do que para o perdão – e dessa forma eu me sinto acolhido, porque finalmente alguma música se levanta para reagir comigo, e não simplesmente para me deixar num estado de letargia suficiente para seguir mais um dia amanhã ou depois. A ideia de split em si não faz muito sentido fora de um contexto no qual a música se encontra como parte de um quadro bem mais amplo.


É evidente que a Triste Fim de Rosilene também faz parte de um enredo ainda mais antigo, formado por outras bandas anteriores também de uma cena local específica que eu pouco conheço – e os músicos da minha geração de forma geral conhecem tão pouco quanto, porque afinal éramos boa parte de nós crianças à época – dentre as quais se destaca a Karne Krua. Essa menção nem precisaria ser feita por mim, já que esse registro conta com um tributo à banda em Sangue Operário em uma versão totalmente acachapante. O que traz para mim uma ideia de que a Triste Fim de Rosilene se entendia dentro desse mesmo contexto.



Tudo o que não importaria nesse disco é a nostalgia que ele poderia provocar – se ele fosse entendido como uma lembrança a sua magia cessaria. Ele é clássico para mim porque ele responde e ressoa no que hoje importa ainda mais do que antes. Mesmo sendo um disco feito por pessoas tão jovens à época, tudo o que esse disco não traz é a ingenuidade da aceitação do jogo publicitário que hoje em dia se apropria de conceitos como DIY para glamourizar o modo particularmente opressivo de funcionamento da “indústria da música” na era do trabalho precário (ou ainda mais precário) – o DIY aqui, pelo contrário, ainda está inscrito em seu sentido político fundamental. Ao contrário do primeiro, não há a vontade de fazer parte do enredo e da mímica, mas de criar um outro meio e um outro mundo. O que pressupõe uma ética não só para a produção artística, mas para a produção da vida e das suas relações cotidianas.


O teor das letras consegue dar uma dimensão real disso – temos, por exemplo, a autoexplicativa Trabalho ou Tortura?, ou as desenganadas Imagens e Castelo de Areia – e todas elas compõem, de forma explícita, esse conjunto de crítica e revanche. O disco realmente soa como um contra-ataque poderoso e é feito de uma maneira musicalmente impecável – a música da Triste Fim de Rosilene nesse split é cheia de deslocamentos improváveis, de introduções e passagens muito inusitadas. Tudo ao mesmo tempo soa preciso e poderoso: a banda jamais deixa a peteca cair.


O Split com Ofensa e Mais Treta se tornou conhecido por mim ali por 2005, na casa de um colega de escola meu. Meses depois acabei indo num show da Triste Fim de Rosilene num lugar bem esquisito, no qual às vezes rolava uns shows: era um posto de lavagem chamado Malibu. A intensidade desse show me comoveu muito e provocou a minha aproximação com Dani e Ivo anos depois, com os quais eu tocaria na The Renegades of Punk. Eles me convidaram para tocar mesmo sem eu ser punk nem nada. Simpatizaram comigo e achavam que eu tocava bem o suficiente e tinha energia para fazer parte da banda. Enfim, não seria nada demais dizer que esse disco mudou a minha vida. A Triste Fim de Rosilene foi a primeira banda que eu vi em Aracaju que me deixou chocado e quem teve a oportunidade de ver com certeza também nunca esqueceu.




Ficha Técnica

Voz Daniela Rodrigues

Baixo e guitarra Ivo Delmondes

Bateria Thiago Babalu


Lançado pela Estopim Records