Madame Javali: Arte da rua para a rua

Atualizado: 20 de Set de 2019

Banda lança disco-oferenda e mostra a importância e a necessidade de inovar e ocupar


por Alisson Mota

Lançamento do disco da Madame Javali, em maio, na Blend do Parque dos Cajueiros. Foto: Jéssika Lima

Numa noite de sexta-feira de maio, em vez de encarar a boemia - quase essencial pros amantes da música - escolhi fazer um programa diferente. Aguardei a chuva cessar para enfrentar 30 minutos pedalando até a Coroa do Meio, encontrar dois músicos e começar a dar corpo a esta reportagem.


Allan Jonnes e Fábio Barros são, respectivamente, vocalista e guitarrista de uma das bandas mais inventivas de Aracaju. A Madame Javali, para além do nome, apresenta mais originalidade do que se pode imaginar. O nome tem origem num poema de Ana Cristina César, chamado “Meia-noite, 16 de junho”, publicado no livro “A teus pés”, de 1982.


Conheci a banda lá pelos idos de 2016, ainda na ressaca política do impeachment da então presidente Dilma Rousseff, numa dor de cabeça que há algum tempo virou enxaqueca crônica. A banda se baseia na poesia falada, que a todo tempo constrange a canção no disco lançado em maio deste ano, “Luz Dentro do Caos”. Esse é o grande diferencial do trabalho deles e foi por isso que abri mão da boemia e escolhi pedalar.


Fábio e Allan moram juntos e são para a Madame Javali o que os repórteres do jornalismo cultural gostam de chamar de “núcleo criativo” da banda, que tem outros três membros: Luno Torres, ex-baixista da Plástico Lunar; Gabriel “Perninha” Carvalho, baterista da The Baggios, e João Mário, que toca alguma coisa em muitas bandas da cena alternativa em Aracaju.


Madame Javali em ação em 2017. Fábio Barros, Allan Jonnes, João Mário, Gabriel Perninha e Luno Torres (esq. para a dir.). Foto: Jéssika Lima

Ao chegar na casa dos músicos, o destino foi o quintal. “Lá é mais fresco”, justifica Allan. Uma mesa de granito redonda com três cadeiras na parte coberta; um terrário e uma rede armada na parte descoberta. Sento-me em uma das cadeiras e Allan vai direto pra rede. Eu pergunto se eles tinham um horário-limite para a entrevista, afinal era sexta-feira. Allan responde: “Parei com tudo. Parei de fumar e beber, além de que hoje não tem nada muito interessante na cidade”. Tudo isso enquanto Fábio senta em outra cadeira e acende um cigarro.


Começo querendo saber do começo. Na minha cabeça é clara a lembrança do Sarau Debaixo, que acontecia mensalmente debaixo do viaduto do DIA e foi uma herança direta da Manifestações de Junho de 2013, a partir do desejo da juventude em ocupar as ruas da cidade. Allan, poeta, fazia parte do coletivo e organizava o sarau; Fábio àquela altura tocava com sua antiga banda, a Alunte. Foi aí que a pulga apareceu na orelha do guitarrista.


“Fábio me chamou pra recitar um poema numa música da Alunte, na época a gente se conhecia só de Facebook”, lembra Allan. “Não vou dizer que nunca tenha acontecido, mas eu mesmo nunca tinha visto aqui, na minha época, uma experiência como essa. Achei que um poema específico de Allan casava com uma música da Alunte”, completa Fábio, revelando a presença do desejo de inovação já àquela altura, lá por 2013.


Hoje, 2/3 da Alunte está na Madame Javali. Além de Fábio, João Mário tocava baixo na banda, que contava com Sean Saad nas baquetas na sua formação original. Saad foi pra Europa, e em sua despedida a Alunte tocou ao ar livre na Orla de Atalaia, na Cinelândia, naquela pegada DIY, de rua. Com a mudança, João Mateus assumiu as baquetas do trio nervoso e viajadão. Mas voltemos à Madame.


Allan Jonnes em estúdio com a Alunte, o ano é 2013. Foto: Larissa Leite

Depois dessa primeira experiência com a Alunte, Allan mergulhou no universo que a mistura da canção com a poesia abriu. Daí conheceu bandas que já fizeram algo parecido na história, como a vanguarda paulistana do Grupo Rumo, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Descobriu outros novos poetas que tinham banda, predominantemente de jazz e blues, como Ademir Assunção e Marcelo Montenegro.

Para formar a Madame Javali, Allan mergulhou nessas referências e Fábio foi o responsável por criar a identidade musical da banda, amalgamando as referências, sempre tentando fugir daquilo que já tinha sido feito.


“Quando Allan me apresentou essas referências e eu ouvi que elas experimentavam no blues e no jazz, achei o som um pouco quadrado demais”, confessa Fábio, que adorou o conteúdo mas nem tanto da forma. Esse foi o ponto de partida na estética empregada na banda: encontrar a fórmula que permitisse misturar o diverso repertório de referências musicais com a métrica da poesia e da palavra falada.


Nesse sentido, a primeira experiência mais consolidada da dupla foi o projeto Intra-Barulho, apresentado no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), em parceria com os poetas Pedro Bomba e Débora Arruda, também do coletivo Sarau Debaixo. O projeto, contudo, não chegou a ser apresentado em terras sergipanas, mas uma das músicas da Madame, “Terrários”, começou a ser gestada ainda no Intra-Barulho.


O sintetizador, presente no Intra-Barulho, continua presente na Madame Javali. Foto: Jéssika Lima

A Alunte acabou e “Giselle”, segunda música do disco da Madame Javali, foi a primeira experiência no laboratório da banda. A música tem como base um poema de Allan, que teve versos adaptados por Fábio, musicando, ali, um poema pela primeira vez. A partir daí, trabalho da Madame é sempre uma disputa entre a canção e a poesia, mas não necessariamente uma coisa ou outra. “A gente pegou essa peculiaridade, abraçou e defendeu”, afirma o vocalista.


A banda surgiu da ocupação dos espaços da cidade e isso se reflete nos temas abordados. São crônicas do cotidiano, que apresentam significantes como a Igreja Batista Betel em “Gisele” ou o “negociante” de algodão doce de “Da Utilidade Pública”, que jura por tudo nessa vida que não coloca a boca para encher o saco do produto de ar.


Num movimento inovador, os músicos se arriscam ao sair daquilo que já está preestabelecido e fazem tudo diferente. Letras diferentes, ideias diferentes, melodias diferentes criadas em conjunto com músicos experientes que encontraram na Madame Javali um espaço de experimentação. É difícil pensar Gabriel Carvalho, por exemplo, tocar bateria eletrônica na The Baggios, tal qual faz na Madame Javali, por conta da diferença estética.

Fotos: Jéssika Lima


A banda daqui pra frente pensa em devolver para a rua tudo que dela foi colhido. Tanto por uma questão de princípios, para espalhar a mensagem e também por sobrevivência. “Existe uma armadilha de achar de que as coisas ficaram mais fáceis com a internet”, lamenta Allan Jonnes. “Eu acho que a gente tem que tocar. Ir para Alagoas, Tobias Barreto, Lagarto, temos que ir para onde for para tocar. Não dá pra depender só da internet”, projeta o vocalista.


A banda já tem participação garantida no próximo Festival de Artes de São Cristóvão, o Fasc, tocando no Beco do Amor em 16 de novembro, sábado, às 16h30.


Escute "Luz Dentro do Caos"