Apostando na produção coletiva, Santa Cena sacode a Aracaju independente

Atualizado: 7 de mai.

Confira entrevista com Luan Allen, diretor artístico do coletivo


por Alisson Mota



De junho de 2021 pra cá, o grosso das produções viabilizada pela lei Aldir Blanc já foi ao ar. Mas iniciativa que mais me chamou a atenção em meio à enxurrada de realizações não partiu necessariamente desse contexto.


Em mais de uma oportunidade, ouvi de gente que trabalha à vera com música nos grandes centros urbanos do Brasil, que boa parte dos artistas que "dão certo" na carreira geralmente são parte de uma rede local, que, além de envolver os artistas, é composta também por profissionais e um público proativo. Seja em Seattle ou em Recife.


Essa rede local geralmente é chamada de "cena". Confesso que, enquanto aracajuano, sempre foi difícil de visualizar o que de fato seria uma "cena". Cresci sempre acompanhando o que acontecia por aqui a nível de música autoral-alternativa-independente-sejaláoquefor, mas nunca consegui conceber o que seria uma cena local, de fato. Fosse pela falta de grana circulando no meio, fosse pela falta de interlocuções entre os componentes desta dita cena.



Eis que em 2021, tem início a iniciativa falada lá em cima. É a Santa Cena, uma comunidade de apoio e suporte à artistas, disfarçada de banca de rap. O nome da banca não foi difícil de imaginar, como me contou o diretor artístico do grupo, Luan Allen. Na verdade, também caiu como uma luva, uma vez que o projeto teve início com artistas do Santa Maria, que também é a quebrada de Luan.


"Iniciamos com o desejo de apresentar os artistas de rap presentes no Santa Maria e, conforme fomos nos organizando, vimos a necessidade de agregar artistas de outros bairros periféricos também", detalha Luan. Hoje 11 rappers e 1 produtor musical fazem parte da banca: NG Lampião da Rima, Weyne, Dlok, Manu Caiane, Mali, Black Ice, Telly MC, BW, Clandestino, Skallifa, NDS Hiata e Euforico (produtor musical).




Além de Luan, também fazem parte do núcleo do Santa Cena o rapper e produtor Ng Lampião da Rima, a cientista social Juliana Santos e a produtora Camilla Santos. "Geralmente decidimos entre essa base e depois repassamos aos artistas envolvidos para que a gente ajuste a ideia e coloque ela em prática", conta Luan sobre o funcionamento do coletivo. "Nos lançamentos, sempre pensamos a melhor forma de apresentar o artista para o público e os lançar para o circuito com sua própria estética", completa.


Pra tocar esse trabalho de estética, produção e comunicação, o Santa Cena é guiado pelo objetivo de evidenciar a potência dos novos artistas de rap em Aracaju. "Esse projeto partiu da necessidade de criar novas e nossas oportunidades para artistas do nosso bairro e de outros bairros periféricos, que há muitos anos já vinham trabalhando e se lançando no circuito, porém não encontravam tanto espaço", justifica Luan.


Criando um novo diálogo


Luan apresenta uma queixa que é comum por aqui e inclusive é um dos motivos da crianção deste espaço na internet. "Esse é um projeto interessante porque, no momento atual em Sergipe, temos uma certa dificuldade em relação a mídia e notícias voltadas para os artistas de rap locais".



Para tentar driblar a falta de espaço nos espaços formais, eles apostam nas live sessions e nas gigs pra mostrar o som. "Usamos o formato de sessions com intuito de servir de vitrine para mostrar os artistas existentes na cena periférica sergipana e escolhemos ir além de só apresentar os artistas presentes no Santa Cena".


Em janeiro eles fizeram o primeiro Bate Kabeça do Santa Cena, no lar dos independentes em Aracaju, o Capitão Cook. "O intuito do evento não foi se lançar como mais uma produtora de evento, nem como mais uma opção de festa, mas sim fazer desse dia uma demonstração física de que a cena é existente e tem força na rua. Uma demonstração de que é possível. Este evento foi uma verdadeira confraternização entre os apoiadores da cena em geral e acreditamos que se iniciou algo naquele dia esse foi o nosso manifesto", conta Luan.



O trabalho do Santa Cena pela valorização e crescimento do rap de Aracaju tem ambições maiores do que simplesmente a própria cidade, ainda que conquistar os conterrâneos faça parte do caminho. "Além de realmente fomentar a produção cultural do nosso bairro e da cena sergipana, nós estamos buscando uma projeção nacional, para que entendam que Sergipe é uma potência, que os artistas periféricos do hip-hop sergipano têm muito mostrar, que são diversos e tem suas próprias estéticas e narrativas. Estamos plantando essa semente e trabalhando diariamente para isso. Eles podem ser grandes, mas nós também somos".


E é nesse caminho de construção coletiva que o Santa Cena aposta. É o caminho testado e aprovado em vários lugares do mundo e que precisa ser difundido na nossa realidade local. "Se organizar de forma coletiva significa que não está só. Se juntar com quem acredita no mesmo que você e estar disposto a lutar pela mesma causa faz com que o gás não acabe e que a gente continue acreditando, correndo atrás, estudando, reivindicando e assim seguindo para um caminho em comum. É a melhor opção."


 

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