Entre morte e vida, Ipásia firma os pés no terreno do dream pop

A banda entrou 2021 com nome novo e lançou, em abril, novo EP; confira faixa-a-faixa exclusivo com Tori


por Alisson Mota


Foto: Luli Morante

Você, querido e estimado leitor, provavelmente já tá ligado no processo de mudança de nome da banda que se chamava Tori e hoje se chama Ipásia. Com certeza é uma das mais originais da terrinha - eu sempre achei uma coisa meio Cocteau Twins com Clube da Esquina -, apostando numa linguagem que une épocas, linguagens e ideias distintas num só guarda-chuva.


A mudança de nome muito tem a ver com esse reconhecimento coletivo, processo que se cristaliza em Voragem, o mais recente trabalho da banda. Seis músicas que transitam em dicotomias num quadro mais amplo. Morte e vida, solidão e comunhão, apatia e empatia.



Pra mostrar um pouco sobre todo esse processo de dentro, convidei Tori, a frontwoman da banda, pra falar um pouco sobre a composição das faixas e como tudo acabou se conectando nesse processo cheio de incertezas, mas necessário para um processo de solidificação.


Inclusive é legal lembrar que metade das músicas do Voragem tinham sido apresentadas pela Ipásia em primeira mão no último aCorde Sessions do ano passado, que rolou em setembro, ainda sob o nome Tori. "Foi ótimo gravar o aCorde Sessions porque aquelas versões acabaram virando as guias de metade do disco", revelou Tori. Que chique.



Essas três novas músicas que rolaram na session vieram antes da pandemia, ainda na esteira do Ignatia,, álbum lançado em 2019. "No geral, metade das músicas já existiam antes da pandemia: Paura, Voglia e O Espaço Pra Caber, que nasceu de um riff de Ricardo [Ramos, guitarrista]. As outras três já surgiram na pandemia", explica a cantora e guitarrista.


Logo mais abaixo Tori explica as músicas do Voragem, uma a uma, e como elas se encaixam no novo rolê da banda. Se ligue:


:::::::::::::::::Ouça e siga a playlist Novos Essenciais:::::::::::::::::

Voragem

Voragem nem ia entrar no disco. Eu a fiz para uma trilha de uma videoarte a pedido da minha irmã, Cibele Nogueira. Toquei fazendo uma gastura no violão, guitarra, baixo e controladora. Eu mixei e ela deu o nome à peça de Tormento. Depois eu renomeei, como Voragem, e durante as gravações Alexandre [Mesquita, baterista] e Bib [Beatriz Linhares, baixista] perguntaram por que ela não entrava no EP. Alexandre gravou uma bateria em cima da trilha que já tava feita e Dudu [Prudente, engenheiro de som que mixou o EP] fez a mix que ela merecia. Foi minha primeira experiência fazendo trilhas.


Tori por Luli Morante

Voglia

O nome Voglia vem do italiano, significa vontade. Ela nasceu no violão ou na guitarra, antes mesmo do lançamento do Ignatia,, era uma época que a galera tava muito lá em casa e aí a gente rearranjou. Funcionou como costuma ser, eu geralmente chego com uma ideia de letra e a banda rearranja.



O Espaço pra Caber

Ela surgiu de um riff de Richardinho [Ricardo Ramos, guitarrista], foi até engraçado porque quando ele me mostrou eu achei bem parecido com aquela música do Engenheiros do Hawaii "um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão...".

Aí o título dela ficou provisoriamente como Richardinho no Havaí. Foi uma música que também já existia na época do Ignatia, e tocamos inclusive no show de lançamento. O Espaço pra Caber foi a nossa primeira experiência de composição compartilhada, onde Richardinho trouxe um riff e a gente construiu tudo em cima e inclusive acabou ficando sem letra. Ela tem esse nome por uma referência direta à Paura, por causa daquele trecho "morrer em segredo/ só pra si/ pra ninguém/ que ame só/ um pouco/ pra dar espaço/ e caber/ de novo".



Paura

Outro título que vem do italiano, significa medo. Originalmente a introdução de Paura era no meio da música. Quando a gente foi tocar, rearranjar, a gente não soube muito o que fazer, rolou um estranhamento com essa parte. Até que rolou a ideia de colocar essa parte, que era no meio, no começo da música. E foi nesse contexto que também nasce a parte frenética no final da música. Eu até sugeri, logo quando a gente rearranjou, que ela fosse dividida em duas, como Sobre o Ponto e . no Ignatia,.



A Velocidade da Luz

Foi, junto à Apatia e Voragem, uma das músicas concebidas durante a pandemia. Teve um dia que eu tava no violão tocando Samba-Jambo de Jorge Mautner e às vezes eu toco com o capotraste lá na casa do caralho... e aí Samba-Jambo foi me levando pra o violão de A Velocidade da Luz. Em setembro do ano passado, bem quando a gente tava gravando o aCorde Sessions, eu tava lendo um livro chamado A Velocidade da Luz, que Bia e Julinha já tinham lido, é um livro da minha mãe. E aí tem uma parte que ficou marcada lá - acho que foi Bia que fez a marcação - onde tem uma paródia de oração, que o personagem teria rezado antes de morrer - e [o escritor norte-americano, Ernest] Hemingway teria rezado também.

Nada nosso que estais no nada, nada é o vosso nome, vosso reino nada, vós sereis nada no nada como no nada.

Aí eu resolvi musicar esse trecho, e pra não ficar tão literal eu fiz algumas alterações na letra. Daí gravei ela toda em casa e depois quando a gente foi pra estúdio, Alexandre gravou as baterias e, na casa de Alexandre e Bibs, Júlia gravou um órgão e Richardinho gravou a guitarra. Foi a única voz, junto aos vocais de Voragem, que gravei em casa e ficou na versão final.



Apatia

Apatia eu fiz, mandei pra galera e só acabou tomando forma de fato em estúdio. Alexandre colocou um groove de bateria bem marcante e também rolou o baixo. Depois, na casa de Bib, Júlia e Richardinho gravaram teclas e guitarra. Tem algumas camadas de teclas que Julinha gravou em casa também. Junto à O Espaço pra Caber é outra experiência coletiva, ainda que o processo dela tenha sido quase todo remoto.


Capa: Cibele Nogueira

Voragem, o disco

Voragem é o nome de um livro que eu não li, mas tem uma capa linda e o nome lindo, né... Voragem. Quando a gente começou a pensar nos conceitos, a ideia que me veio foi um lance de destruição e criação, morte e vida, que parecia que era o que tava presente nas letras.


E é bem essa a viagem do disco, já que metade do disco é baseada numa coletividade mais óbvia e outra metade vem muito do tocar sozinha e pensar sobre várias coisas. Para além da guitarra e da voz, já gravei coisas no baixo, na controladora... Outra peça importante foi Dudu [Prudente], que sempre fez mixagens bem criativas com a gente, colaborou com alguns beats em Paura e fez uma mixagem bem gostosa, baseada nesse gênero que enquadraram a banda e a gente acatou, que é o dream pop. Ele usou muitos pedais de echo, reverb, o que resultou nessas texturas.


O disco tem um trânsito entre solidão e comunhão. Acabou que isso tudo teve a ver com o próprio momento da banda, porque foi justamente o momento da mudança.






Ficha técnica

Alexandre Damasceno: bateria, arranjo, vozes

Beatriz Linhares: baixo, arranjo, vozes

Júlia Rocha: piano, arranjo, vozes

Ricardo Ramos: guitarra, arranjo, vozes

Tori: composição, guitarra, arranjo, voz







1) Voragem

Alexandre Damasceno: bateria, arranjo

Dudu Prudente: space echo e ocean verb

Tori: composição, arranjos, violão, baixo, guitarra, controladora, vozes


2) Voglia

Alexandre Damasceno: composição, bateria, arranjos

Beatriz Linhares: composição, baixo, arranjos

Dudu Prudente: space echo e ocean verb

Júlia Rocha: composição, piano, arranjos, voz

Ricardo Ramos: composição, guitarra, arranjos

Tori: composição, letra, guitarra, arranjos, voz


3) O espaço pra caber

Alexandre Damasceno: composição, bateria, arranjos, vozes

Beatriz Linhares: composição, baixo, arranjos

João Mário: vozes

Júlia Rocha: composição, piano, arranjos, vozes

Ricardo Ramos: composição, guitarra, arranjos, vozes

Tori: composição, guitarra, arranjos, vozes


4) Paura

Alexandre Damasceno: composição, bateria, arranjos, vozes

Beatriz Linhares: composição, baixo, arranjos, vozes

Dudu Prudente: beats, percussão

João Mário: vozes Júlia Rocha: composição, piano, arranjos, vozes

Ricardo Ramos: composição, guitarra, arranjos, vozes

Tori: composição, letra, guitarra, arranjos, voz


5) A velocidade da luz

Alexandre Damasceno: bateria, arranjos

Dudu Prudente: space echo e ocean verb

João Mário: baixo sintetizador, arranjos

Júlia Rocha: órgão, arranjos

Ricardo Ramos: guitarra, arranjos

Tori: composição, arranjos, violão, baixo, controladora, vozes

A letra de “a velocidade da luz” é uma adaptação do trecho do livro A Velocidade da Luz, de Javier Cercas: “nada nosso que estais no nada, nada é o vosso nome, vosso reino nada, vós sereis nada no nada como no nada” (CERCAS, 2018, p. 211).


6) Apatia

Alexandre Damasceno: bateria, arranjos

Beatriz Linhares: baixo, arranjos

Júlia Rocha: piano, sintetizador, arranjos, vozes

Ricardo Ramos: guitarra, arranjos

Tori: composição, letra, guitarra, arranjos, voz


Foto: Luli Morante



Ficha técnica do clipe Paura:

Direção Geral: Jéssica Dias

Roteiro: Jéssica Dias

Direção de Fotografia: Jéssica Dias

Operação de Câmera: Jéssica Dias

Produção: Luli Morante

Still e Fotografia: Luli Morante

Iluminação: Davi Cavalcante

Direção de Arte: Cibele Nogueira e Jéssica Dias

Instalação e Vídeo-Arte: Cibele Nogueira

Figurino: Karen Urpia e Jéssica Dias

Maquiagem: Fernanda Teles

Dança e Performance: Isa Maga

Montagem: Nathan de Souza e Jéssica Dias

Edição: Nathan de Souza