Ferraro Trio - Urbanoide (álbum)

Atualizado: Mai 24

Álbum é o único da banda e foi lançado após o anúncio do término das atividades do grupo instrumental; confira entrevista com Rafael Jr.


por Alisson Mota


Foto: Luiz Oliva

Após uma década descendo a mão em cordas, peles e pratos, a Ferraro Trio finalmente lançou um registro de estúdio, Urbanoide. Infelizmente, foi um processo concomitante ao encerramento das atividades da banda. O ciclo se fechou e o legado permanece, cristalizado na obra registrada ainda em 2017, mas que só viu a luz do dia em 2021. Antes tarde do que nunca.


Capa: Alê Alcântara

Urbanoide é um registro digno de tudo que a gente sabe do que o trio é capaz. Bem gravado e com uma pós-produção arrebatadora, agora a gente pode ouvir tudo com a qualidade devida, com detalhes que sempre escapam no ao vivo.


Essencialmente tá tudo ali. As assinaturas estão presentes e o virtuosismo limpidamente evidenciado. São 10 composições autorais, algumas já registradas no DVD gravado em 2010, outras ainda inéditas.


Algumas músicas já tinham registros de estúdio, como Ponta dos Mangues, Pega o Doido (que virou vinheta da UFS FM) e Retrobyte. Dá pra destacar também a versão good vibes de Lucimar, gravada pelo trio junto a Henrique Teles na Maria Scombona. Se a original tinha tons sarcásticos e elétricos, aqui predomina o acústico e tom de redenção, reforçado pelo auxílio do trombone de Moisés Santos.


O álbum em si não traz nenhuma novidade sobre a sonoridade da banda, mas é a documentação de uma iniciativa que não poderia passar incólume à história da música sergipana. E para isso traz arranjos bem elaborados, numa produção que é simples mas não simplista. É um retrato digno do que foi a Ferraro Trio: um groove verdadeiro e direto ao ponto.


Veja abaixo entrevista com o baterista Rafael Jr.:


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aCorde O título do álbum remete diretamente ao urbano, à vida na cidade. Ouvindo o álbum senti isso, mas também uma sensação de fuga, de som pra pegar a estrada, principalmente no começo do disco. Quais os sentidos, conceitos e intenções de Urbanoide?

Rafael Jr. São interpretações livres de cada um, você mesmo colocou duas visões que fazem todo sentido, e a música instrumental possibilita isso, diferente de uma música com letra, que te dá um norte mais fechado, de uma maneira geral.

Urbanoide é um reflexo dos três músicos e cidadãos Sergipanos que interagem com a cidade e possuem com ela uma ligação forte de afeto. Mas a intenção também é soar universal e sem fronteiras. É a nossa expressão em forma de música, simples assim e sem grandes pretensões além de ser verdadeiro.


Como se deu a escolha das composições? Sabemos que o álbum consiste numa compilação de músicas de toda a vida do Ferraro Trio, mas considerando que os três são instrumentistas virtuosos, além de serem pesquisadores, como foi concatenar tudo num só produto coeso e poder dar o álbum como finalizado?

RJr Foi um processo natural e não descartamos tanta coisa não. Isso é basicamente o que compomos de mais substancial e coeso dentro dos 10 anos da banda. Talvez por depender mais das composições de Saulinho Ferreira e ele também ter outros trabalhos paralelos... Se eu e Robson também escrevêssemos mais temas, talvez teríamos uma maior diversidade e rolasse um processo de "peneira" pra escolher o repertório do álbum, mas não foi o caso ... Eu gosto do resultado e da identidade do disco.


Roda e vira a gente vê associações ao Ferraro Trio como “o instrumental da Maria Scombona”. No álbum, há a releitura de Lucimar, inclusive com a participação de Henrique. Como foi a relação entre os projetos durante todos esses anos?

RJr São projetos diferentes, apesar de ter a maioria dos instrumentistas em comum. Nascemos a partir de "jams" do trio em passagens de som da Maria, então a ligação é natural. Mas a Maria Scombona é ligada à palavra, ao texto e sotaque de Henrique Teles, já o Ferraro são composições de Saulinho que focam apenas em melodias, harmonias e improvisações em cima do tema. São, portanto, caminhos diferentes.



Urbanoide marca o encerramento das atividades da banda. Qual o balanço desse pouco mais de uma década da banda?

RJr Em uma década nos divertimos bastante, fizemos muitos shows e produzimos material autoral. Acho que influenciamos uma nova geração porque na época não tinha quase ninguém fazendo música instrumental. Acho isso massa, mas foi apenas um desejo natural dos três. Que bom que gerou frutos!

Fizemos umas viagens e participamos de festivais importantes de música instrumental, fora de Sergipe. Então de alguma forma também levamos um pouco de sergipanidade por aí, representando um Estado sem muita tradição na música instrumental feita no Brasil. Foi importante ter o registro do álbum, mesmo que apenas na rede, é um bom resumo dos nossos 10 anos de atividades e equilibra bem nossas referências de rock, jazz e soul music. A gente espera que as pessoas gostem e a repercussão tem sido legal.


Os membros da Ferraro participam de inúmeros projetos musicais. Quais as perspectivas dos projetos autorais de Rafael, Robson e Saulo?

RJr Saulo Ferreira é que tem investido de maneira mais completa em projetos autorais próprios, tanto em discos solo como "Direções" e "Hiato" quanto em grupos como o Jazz III e o Trança de Caipora, que particularmente é o que mais gosto.

Robson passou a se dedicar cada vez mais ao ensino de música e eu encerrei as atividades também em outros projetos autorais (como a Snooze). A Maria Scombona ainda existe mas estamos sem atividades desde antes da pandemia.

Eu tenho gravado pra vários artistas, em álbuns, EPs e singles. A Lei Aldir Blanc gerou uma demanda legal, tanto de artistas novatos quanto veteranos. Fora isso continuo como músico da Banda do Corpo de Bombeiros do Estado de Sergipe. Quando a pandemia passar, pretendo voltar aos palcos e fazer shows, como era até começar essa loucura que estamos vivendo.