Me libere, cacique Serigy!

O mercado sergipano de música independente encontra várias dificuldades para se estabelecer. E a culpa é de quem?


por Alisson Mota, com colaboração de Cristian Góes

publicado originalmente no Portal Contexto

Ainda quando o Brasil começava a se estabelecer como colônia de Portugal, lá pelo século XVI, os europeus já avançavam sobre o território que hoje corresponde ao estado de Sergipe. Reza a lenda que, ao ser capturado após um massacre de sua tribo, o principal líder indígena dessa região, o cacique Serigy, teria rogado uma praga àquelas terras que foram usurpadas do seu povo: a terra não teria dono e nada que se fizesse por lá daria certo.


Passados quase cinco séculos desde a “maldição” do cacique Serigy, a lenda já foi utilizada como metáfora, e às vezes como justificativa, para o malgrado dos sergipanos em engrenar projetos nas mais diversas áreas. Do futebol à economia, a sensação é de que nada dá certo. O cinema sergipano produziu uma curta-metragem, “A eterna maldição do cacique Serigy” (2009), que traz uma releitura da lenda do líder indígena. Coincidência ou não, pouca gente sabe desse filme. (Assista abaixo)



No cenário musical sergipano então, sobretudo no independente, a lenda já foi citada inúmeras vezes. A razão do insucesso, contudo, está muito mais próxima e palpável do que a lenda sugere.


Sergipe já teve e ainda tem representantes importantes no cenário musical brasileiro. Nomes como Rogério e a The Baggios, por exemplo, conseguiram disseminar sua palavra por diversos cantos. Entretanto, produzir música na terra do cacique Serigy não anda nada bem, principalmente para quem se atreve a trilhar um caminho de independência.


A constatação entre os músicos é quase unânime: falta lugar pra tocar, gente pra ouvir, dinheiro pra gravar. Sobra dor-de-cabeça pra quem tenta movimentar a cena musical em Sergipe. As grandes questões são: se existem tantos talentos e bons projetos musicais, por que não há sustentabilidade? Por que é tão difícil ter um projeto musical? Por que as tantas iniciativas para fortalecer a cena, como os festivais, não se sustentam?


Iniciar e manter o projeto musical


“A banda é de certa forma uma empresa, tem que encarar como algo sério, que você vai investir e lucrar, mesmo que seja pouco”. As palavras são de Julio Andrade, guitarrista e vocalista da banda sergipana The Baggios. Essa postura é comum no cenário independente frente às dificuldades de financiamento e estrutura, e reforçam a visão do empreendedorismo na música.


Por muitas vezes, os músicos precisam assumir várias funções além de tocar e compor, como tarefas de produção cultural e de comunicação social. Antigamente, com as gravadoras, existia um núcleo de trabalhadores que cumpriam essa função de intermediar o trabalho do artista com o público.


Essa realidade representa também uma precarização do trabalho de músico. Para Allan Jonnes, vocalista da banda Madame Javali, formada em 2016, é difícil conseguir fazer a banda ser ouvida quando não tem dinheiro. “Existe uma armadilha de achar que as coisas estão mais fáceis por causa da internet, mas existe um fluxo de informação muito grande, o que provoca um afunilamento pelo poder financeiro”, analisa o músico.


Madame Javali no lançamento do seu primeiro disco, em maio. Foto: Jéssika Lima

A pesquisadora e professora do Departamento de Economia da UFS, Verlane Aragão, corrobora a visão de Jonnes: "as oportunidades se abrem no momento em que os artistas terão que se readequar a um contexto de competição e concorrência, onde a intermediação com o público é cada vez mais disputada e apropriada, inclusive por velhos atores do mercado musical”.


Allan Jonnes reforça a importância de eventos e festivais nos quais a banda possa se apresentar. “Eu acho que a gente tem que tocar. Ir para Alagoas, Tobias Barreto, Lagarto, temos que ir pra onde for pra tocar”, afirma. “A gente tem que formar nosso público indo atrás das pessoas e tocando nos lugares. Não dá pra depender só da internet”, finaliza.


Políticas de fomento


Há uma carência de políticas de fomento ao mercado musical, especialmente do setor público. Festivais, como o Verão Sergipe, Projeto Verão e Rock Sertão, que cumpriam papéis estratégicos na disseminação e financiamento das bandas, foram descontinuados pelos governos. A justificativa é sempre da falta de recursos.


Em 2008, a The Baggios começava a tocar nesses festivais, recebendo melhores cachês, sendo o ponto de partida da organização financeira da banda. “Ali eu me dei conta de que a gente ia precisar de grana pra poder gravar um disco, comprar equipamento... Daí a gente sempre deixou uma grana no caixa da banda. Turnês, videoclipes são sempre financiados com esse dinheiro”, conta Julio Andrade.


Sergipe também é carente de festivais competitivos, aqueles com premiações em dinheiro que ajudam os músicos a gravar canções e excursionar. O último deles, realizado com recursos públicos, foi o III Festival “Um Banquinho, Uma Canção”, finalizado no início de 2018. Outro editais voltados a projetos artísticos também são promovidos pelo estado, como o Festival Sergipano de Artes Cênicas.


Na avaliação de Verlane Aragão, o Estado hoje atua de maneira inconstante através desses editais, cujo próprio formato é problemático, já que poucos artistas e produtores têm o conhecimento específico para isso, tornando esse instrumento excludente. “Esses editais são pontuais, que acontecem sem que sejam compreendidos dentro de uma lógica ampla de política pública e sem que eles possam chegar ao núcleo que constitui os eventos públicos, que hoje são a principal política pública”, completa.


A extinção da Secretaria do Estado de Cultura deixa a situação mais delicada, tanto do ponto de vista organizacional, quanto dos recursos destinados à cultura. A Secult passou por uma fusão com a Fundação Aperipê, formando a Fundação de Arte e Cultura Aperipê (Funcap). Outras medidas, como a venda de espaços publicitários na Televisão e Rádio Aperipê, têm sido adotadas devido aos problemas financeiros do Estado.


A Orquestra Sinfônica do Estado de Sergipe (Orsse), por exemplo, passou a realizar apresentações com bilheteria, quando até pouco tempo atrás eram gratuitas. “A ideia é que esses recursos sejam revertidos para a própria Orsse, além de apoiar projetos de intercâmbio, para que artistas sergipanos possam ir a outros países”, conta a diretora-presidente da Funcap, Conceição Vieira.


Em Sergipe, a produção de boa parte dos festivais e mostras fica por conta da iniciativa privada, através do terceiro setor. Exemplo disso é a realização do Sescanção e da Aldeia Sesc de Artes, promovidos anualmente pelo Serviço Social do Comércio (Sesc).

O Sescanção premia em dinheiro os vencedores, já a Aldeia Sesc de Artes é um festival descentralizado e gratuito, que garante estrutura e cachê aos músicos. Essa perspectiva reforça o que já tem acontecido em outros estados, onde empresas assumem papel de mecenas, muito por conta das políticas de renúncia fiscal como as propostas na Lei Rouanet.


Conceição Vieira, diretora-presidente da Funcap. Foto: Infonet/Arquivo

No cenário independente, a empresa de cosméticos Natura publica editais para gravação de discos através de um selo próprio, o Natura Musical. Bandas sergipanas como a The Baggios e a Coutto Orchestra já foram contempladas com essa iniciativa. Esses editais ajudam a financiar festivais de música independente no Pará, Bahia, Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro.


Dessa forma, os artistas selecionados pelo Natura Musical, além de conseguirem recursos para gravação dos trabalhos, entram no circuito dos festivais do selo. Segundo a pesquisadora Verlane Aragão, esse método tem sido aproveitado por empresas de grande porte. “Essas empresas vêem o ganho em duas frentes: da própria renúncia fiscal e da vinculação da marca da empresa ao nome do artista”, afirma Verlane.


Festivais, comunicação e formação de público


A iniciativa da Prefeitura de São Cristóvão de retomar a realização do Festival de Artes de São Cristóvão (Fasc) em 2017 representou um suspiro na promoção cultural em Sergipe.


O Fasc tem um papel importante por ser uma grande vitrine, colocando novos músicos locais ao lado de grandes artistas nacionais, conferindo experiência de palco, melhorando o currículo das bandas e garantindo um cachê, mesmo que pago com atraso, uma prática recorrente nos eventos públicos em Sergipe. A banda Cidade Dormitório, por exemplo, dividiu o palco com artistas de renome como Chico César e BaianaSystem, além da própria The Baggios.


Cidade Dormitório no palco principal do Fasc em 2018. Foto: Felipe Goettenauer

Outro exemplo de evento que pode ser importante para o cenário independente é o Festival Daqui, realizado em 13 de julho. O festival é privado, sendo idealizado pelo grupo Blend, de restaurantes e hamburguerias em Aracaju e que já tem tradição na produção de eventos musicais. Sergipe já teve experiências como essa há poucos anos, com o Festival Zons, e há mais tempo com os festivais Punka e Rock-SE.


Uma iniciativa promovida pelo Estado, através da Funcap, é a restauração e reativação do Gonzagão, um dos mais importantes aparelhos culturais do estado. “Ainda em julho abriremos o espaço semanalmente para os músicos de Sergipe, que poderão dividir a bilheteria entre os artistas que se apresentarem em cada dia”, afirma Conceição Vieira.


Diante da quantidade de talentos no estado, fica claro que urge estruturar a cena, tendo pessoas envolvidas também na comunicação e na produção de eventos. Hoje existe o gargalo financeiro, que é muito cruel com os artistas que começam a carreira. O apoio do Estado junto à iniciativa empreendedora dos artistas rende ótimos frutos para a cena cultural e isso se verifica nas poucas oportunidades em que isso aconteceu. Não há lenda, cacique, ou qualquer força sobrenatural que impeça que as boas experiências voltem a acontecer e sejam consolidadas.