Álbuns e EPs sergipanos de 2019

Atualizado: 5 de Mar de 2020

por Alisson Mota


Vinte trabalhos sergipanos, entre álbuns e EPs, foram lançados de forma independente em 2019. Aqui a gente compilou tudo pra você não perder nada.



Entre os trabalhos listados estão artistas que já estão há muito tempo na estrada, bem como trabalhos de estreia da prolífica cena independente sergipana. Apesar das dificuldades, da falta de incentivo e principalmente da falta de grana e lugares para tocar, a galera não desiste. Então dê essa moral e ouça quem tá se esfolando pra produzir boa música por aqui. Você não vai se arrepender.



Alê Martins - Não Dói Nada

O som das gaivotas e um órgão nervoso introduzem o álbum, já dando uma ideia do clima do trampo de Alê, hoje residente em Altamira-PA. As influências do rock clássico setentista saltam aos ouvidos, numa produção que não dá rodeios, já chega mostrando a que veio, refletindo as influências do artista.


Alê Martins por muito tempo tocou clássicos do rock na noite aracajuana e esse know-how é bem expresso em Não Dói Nada. Um dos pontos altos é Forças Ocultas, que abusa do wah-wah e tem a letra mais política do álbum. De quebra, o disco conta com contribuições da Plástico Lunar (Fecho-eclér) e Arthur Matos (Redemoinho).


Alex Sant'anna - Insônia - Ao vivo no Centro Cultural de Aracaju

Alex representa na lista com o único trabalho ao vivo da lista. Insônia Ao Vivo reúne as canções do EP Insônia, lançado em 2017, além com outras canções dos discos Enquanto Espera, de 2015, e Aplausos Mudos, Vaias Amplificadas, de 2004. Participam do EP Diane Veloso, Nicole Donato e Anne Carol.


Allen Alencar - Esse não é um bom verão para nós

Em novembro Allen lançou o single Kabul, colocando no mundo, na semana seguinte, Esse não é um bom verão pra nós, seu primeiro disco solo. O músico já tem um currículo extenso de colaboração com nomes como Curumin, Fafá de Belém, Criolo e Russo Passapusso e agora coloca sua voz e composições pra jogo.


Esse não é um bom verão pra nós é talvez o disco "mais paulista" feito por artistas sergipanos. Tem uma atmosfera onírica e parece ser daqueles para se ouvir dentro de um apartamento numa tarde chuvosa. As letras são, em sua maioria, introspectivas, dando a entender que partem de crônicas pessoais de Allen. Ao mesmo tempo, este não é um disco daqueles mais melodramáticos, mas é melancolia solar. Um dos preferidos da lista.


Blu-dogs - Blu-dogs (EP)

A banda de blues e funk rock de Aracaju lançou seu primeiro trampo autoral. o EP autointitulado conta com quatro composições em inglês e estão no mesmo universo que a banda já explorava na apresentações ao vivo. Entupido de riffs, é um registro do mais cru e direto que o rock pode proporcionar - guitarra-baixo-bateria.


BW - Versátil

BW lançou o álbum que, segundo o próprio, é o primeiro de trap em Sergipe. Com a colaboração de Teko na produção musical e na arte da capa, são nove faixas de um trap que é localizado em Aracaju, trazendo signos e referências locais.


Cidade Dormitório - Fraternidade-terror

Dois anos depois do EP Esperando o Pior, a banda se apresenta mais psicodélica e nilista do que nunca. Antes do álbum, já haviam sido lançado dois singles: Relacionamentos são Extremamente Complicados e Meu Cachorro Sabe Disso e Homo Erectus Plus, esta com participação de lllucas.


Agora em formato de trio, a banda parece estar mais concisa e com mais certeza das incertezas que tem. Reflexões sobre a vida conectada e as relações pós-modernas, lombra e bad, as pressões da vida do jovem adulto... tá tudo aí.


Dry - Amargura

Transitando na intimidade e abordando questões acerca do amor - ou da falta dele - e de sexualidade, o álbum de estreia da produtora Dry escancara seu potencial. Dá pra sacar que a intenção foi de criar uma identidade sonora que, embora tenha claras referências de artistas como Jaloo e Linn da Quebrada, apresenta bastante originalidade, também identificada com o Nordeste, estampado na capa.


O álbum foi completamente produzido em casa por Dry, gravado pelo celular, sem horas de estúdio. Participações especiais ajudam a aumentar a potência da obra. A abertura do trabalho com o cordel de Daiene Sacramento já deixa claro o conceito para quem começa a ouvir. Os versos cortantes de Yala dão movimento, assim como a poesia de Negalê e a Transgressão de Pérola Negra. Amargura tem um sentido dúbio, transitando entre o amor e a solidão, mas também com a psicodelia. Uma bela surpresa.


Gab Coelho - Self Awareness

O primeiro álbum de Gab Coelho chegou em maio de 2019. O produtor vem lançando singles desde 2017, mas em Self Awareness houve o ímpeto de construir um conceito que una todas canções dentro de uma proposta estética que transcende a música, mas envolve moda e um estilo de vida. Cantando em inglês e com fortes influências de trap e house, Gab é parte da nova geração da música pop eletrônica feita em Aracaju.


Gustavo Nabuco - Shogo, EP. 1

Mergulhado em referências do indie do começo dos anos 2000, sobretudo o indie-folk, Gustavo Nabuco lançou seu primeiro trabalho em maio. Gustavo compôs e canta todas as músicas em inglês, trazendo a experiência dos shows com a banda Pocket Indie, onde reproduz alguns dos sucessos do gênero na noite em Aracaju. São canções daquelas para a entrar no carro e começar uma viagem. Vale o play.


Héloa - Opará

O segundo disco da sergipana radicada em São Paulo é um mergulho na ancestralidade. E esse mergulho não é por acaso, já que Opará é o nome original do rio São Francisco, atribuído pelos Kariri-Xocó. Opará também é, em iorubá, a divindade que atua nos rios e cachoeiras. E essa ancestralidade vai além do nome, já que em todas as canções existem referências à cultura negra e indígena.


O trabalho conta com a produção de Zé Nigro, que já produziu trabalhos de gente como Curumin, Luísa Maita e Anelis Assumpção. A ancestralidade também é evocada nas participações especiais de Mateus Aleluia, d'Os Tincoãs, e do grupo Sabuká Kariri-Xocó. Também participam do disco o conterrâneo Mestrinho e o grupo Mulheres Livres, formado na Penitenciária Feminina do Carandiru. Ancestralidade e resistência.


Madame Javali - Luz dentro do Caos

O disco de estreia da Madame Javali tardou mas não falhou. Baseado no spoken word, mas com arranjos mais arrojados do que a maioria das bandas do gêneros, a banda se debruça sobre as histórias pessoais e crônicas da cidade, partindo, em boa parte, dos arroubos poéticos do vocalista e compositor Allan Jonnes. A gente fez uma matéria destrinchando todo o processo de concepção e produção do álbum, que você pode conferir aqui.


Marcelle - DiscoNeXa

Já começo aqui avisando que o disco está entre os 50 melhores de 2019 na lista da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Se esse motivo não for suficiente, tem mais uma ruma. Um deles é que é um dos álbuns mais gostosos que já ouvi nos últimos tempos. Com os arranjos entupidos de camadas e uma malemolência digna do arrocha das bandas de cá, a cantora e compositora sergipana residente em São Paulo mostra, no seu terceiro disco, uma extravagância penetrante. Sei lá, soa como Letrux, se ela tivesse nascido no nordeste. Só ouça.


Ah, o álbum tem participação de Ava Rocha em uma das composições, além da guitarra do guitar hero paraense Manoel Cordeiro. Pesadão.


Muralhaa - Dubaju

Disco de praia, como a capa e o Hit do Amor sugerem. O segundo disco do produtor Muralhaa é outra boa surpresa, demonstrando que o pessoal por aqui tá sabendo mexer direitinho com os softwares de composição. O disco é entupido de participações especiais, que emprestam as vozes para as composições do produtor. O disco é uma delícia, mas não se engane: Muralhaa tá é puto nessa suruba que é geral fodendo geral... Quem não entende, surta.


Ordinals - Gravidade

O terceiro EP da Ordinals veio cabuloso. Ultrapassando as influências do hardcore melódico, a banda adota uma identidade mais próxima ao emo e ao post-hardcore de bandas como Superheaven e até mesmo do At The Drive-In. O grande destaque do trampo são os arranjos de guitarras, que são massacradas por Kabula e Murillo Viana - este quase onipresente nas bandas de rock pesado de Aracaju. Um petardo que indica o bom caminho que banda está seguindo.


Pedro Luan - O Que Há de Segredo

O segundo disco do cantor e compositor sergipano mostram um enorme amadurecimento, principalmente em relação à identidade que Pedro quer assumir. Com influências escancaradamente djavanescas, ficou por conta do produtor Fabrício Rossini colocar um bom tempero no trabalho, com referências da gringa.


Um ótimo álbum, baseado na MPB clássica mas apontando caminhos que dialogam com o jazz - não por acaso Saulo Ferreira também faz parte do trabalho -, e possui pitadinhas homeopáticas de psicodelia. Pedro Luan contou aqui como foi o processo de produção do disco.


Running Back - Impermanência

O grupo de hardcore de Aracaju lançou o seu terceiro trabalho no início de 2019. Com ele, são dois EPs e um álbum completo. Impermanência fala, como o nome já sugere, sobre a transitoriedade da vida e suas vicissitudes. Ansiedade com o futuro que deixa o presente em aberto. Hardcore melódico na veia, tanto no som, quanto nos temas abordados. Sonzão.


Sandyalê - Árvore Estranha

Depois de cinco anos, Sandyalê lançou o sucessor de Um no Enxame (2014). Seu primeiro disco foi baseado em arranjos minimalistas e orgânicos, numa pegada mais voltada à música brasileira. Já Árvore Estranha apresenta toneladas de sintetizadores e muita inspiração na música gringa, sobretudo o post-punk e o pop alternativo das francesas Fishbach, The Dø e Charlotte Gainsbourg, abusando da psicodelia dos timbres eletrônicos, muito por conta da produção de Dudu Prudente.


Maioria das das composições são da própria Sandy, num exercício de auto-análise e também de expressão dos sentimentos e sensações da compositora. Até mesmo as composições que não são assinadas por ela, como Pêia, Vão e Árvore Estranha (respectivamente compostas por Elvis Boamorte, Fabrício Mota e Lauckson), correspondem a esse conceito. Um dos melhores e mais coesos trabalhos desta lista.


TAYA - Tormento

Outro trabalho de expressão de sentimentos pessoais é Tormento, primeiro EP de Taya. Musicalmente, o EP transita num arrocha sincretizado, flertando com o tango e o flamenco. As canções falam muito sobre ilusões e desilusões, sobre amor, ainda que não somente romântico. No meio do trabalho existe um grão, Meu Grão, composto para o filho da cantora e compositora, que assina todas as canções e divide os arranjos com o baterista Danyel Nanume.


Tori - Ignatia,

Ouvir Ignatia é tipo tomar um doce. No começo você só percebe que a lombra chegou, daí ela vai te levando por lugares que você nem imagina, bate uma euforia da rabeira da coisa e no fim você só morga e apaga. Entupido de camadas, dissonâncias e instrumentalizações vocais, este álbum já é uma das pérolas da música sergipana.


Imerso numa atmosfera etérea, é possível traçar comparações com bandas como Melody's Echo Chamber, ainda que Tori soe surpreendentemente original. Na concepção parece que a construção é sintetizada tal qual Boogarins nos primeiros trabalhos: o som gringo e psicodélico misturado ao lirismo da MPB, sobretudo do Clube da Esquina. Um deleite. E não por acaso, ignatia é uma planta que acalma o juízo e dá conta de frear a ansiedade.


Zeitgeist - A Dança dos Mortos

Mermão, êitxa dôdjera do caraio. Acho que se a Karne Krua fosse uma banda nova, soaria mais ou menos com a Zeitgeist soa aqui. Mas não se engane, o som tem a cara dos caras. Em comum entre as duas bandas está o fato de que as ideias são xeque demais. Da capa aos títulos e letras das canções, é tudo muito direto ao confrontar o atual estado que a sociedade brasileira se encontra. E é um riff mais cabuloso que o outro, com a bateria mais agoniada que eu já ouvi pelas bandas de cá. Os caras conseguem ir, numa mesma música, do grindcore ao doom. Tem até espaço para referências a Jello Biafra e Marcelo Nova no vocal. E haja garganta...


Atualizado em 5/03 às 10h27 para adicionar os trabalhos de Alex Sant'anna e Running Back.